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Sexta, 14 de setembro de 2018, 14h01

Tenente Ledur tratava pelotão como lixo, afirma soldado em depoimento

Valquiria Castil, repórter do GD


Divulgação

Tenente Izadora Ledur

O juiz Murilo Moura Mesquita, da 11ª Vara Militar do Fórum de Cuiabá, ouve nesta sexta-feira (14) o 2º tenente do Corpo de Bombeiros Antônio Claro e Jane Patrícia Lima Claro, pais do aluno Rodrigo Claro, 21, que morreu no dia 15 novembro de 2016 após curso de formação na Lagoa Trevisan. Também prestam depoimento os ex-alunos dos bombeiros Maurício Júnior dos Santos, Thiago Serafim Vieira e o tenente coronel Willckerson Adriano Cavalcante.

A tenente do Corpo de Bombeiros Militar, Izadora Ledur de Souza Dechamps é acusada de tortura e foi  indiciada pela morte de Rodrigo Claro. Contra ela pesa a cusação de ter praticado excessos nos treinamentos de novos bombeiros. Ledur é ré no processo junto com outros 5 oficiais desde agosto deste 2017.

Reprodução Facebook

Rodrigo Claro morreu no dia 15 de novembro de 2016 após participar de treinamento e atividades aquáticas, pelo 16º Curso de Formação de Soldado Bombeiro do estado de Mato Grosso. A vítima teve hemorragia poucas horas depois de deixar o local, onde foi submetida a sessões de afogamento durante a travessia na lagoa, sob o comando da tenente Izadora Ledur.

Ele chegou a ser hospitalizado com um quadro de hemorragia cerebral que evoluiu para morte, após cirurgia e 5 dias internado em UTI.

Confira os principais momentos da audiência

18h40h - O juiz Murilo Mesquita encerrou a audiência. Fora da 11ª Vara Criminal, Jane passava mal após presenciar o depoimento do marido. Com a pressão baixa, a mulher foi socorrida em um carro particular. 

18h17 – O pai de Rodrigo, Antônio Claro conta que estava na Capital junto com filho, porém fazendo curso de bombeiros de especialização, na época era subtenente em Tangará da Serra. No dia do curso, o pai conta que se despediu do filho normalmente. Por volta das 18h, recebeu uma ligação do soldado Marim perguntando se Rodrigo tinha alergia a algum medicamento. “Disse que não e perguntei o porque. O soldado disse que o Rodrigo estava com uma pequena dor de cabeça”, conta.

“O que a tenente Ledur fez com meu filho foi uma barbaridade. Fiquei sabendo que ela afogou ele por várias vezes”, disse em depoimento.

Antônio relatou que ser bombeiro na família, antes motivo de orgulho, agora gera temor. "Eu tinha outro filho que também queria ser bombeiro, mas agora eles não gostam nem de me ver fardado. Eu não consigo mais usar a farda", disse emocionado.

Ele contou também em juízo que já teria pensado em se matar. "Já pensei em tirar a própria vida, mas em sonho Rodrigo me disse para não fazer isso", contou. Ao fim do depoimento o pai disse que faltavam apenas 22 dias para Rodrigo realizar o sonho de ser bombeiro. 

18h02 – “Rodrigo não fez mal a ninguém. Rodrigo foi morto por pura maldade”, contou ao relatar o que o filho passou durante o curso. “Não imaginava que uma pessoa capaz de salvar vidas tinha capacidade de cometer tamanha atrocidade. Ela trepava nas costas dele para ele submergir. Fiquei sabendo disso através dos colegas de curso do Rodrigo, que me contaram depois tudo o que aconteceu no treinamento”, relatou.

Chico Ferreira

Antônio Claro

17h51 – No dia do curso, na Lagoa Trevisan, Jane conta que recebeu uma mensagem do filho, ao qual presumi que ele tenha mandado ao sair do curso. “Recebi a seguinte mensagem, exatamente com essas palavras ‘mãe eu não consegui, tô mal pra caralho’. De imediato liguei para o meu esposo”, afirmou.

Em seguida, os relatos de Jane informam apenas as ligações que ela recebia. O cabo Joilson ligou para a mãe de Rodrigo através do celular dele e disse que não era para se preocupar. “Disse que ele estava sendo atendido e não me deixavam falar com ele”, afirmou.

“A hora que o marido chegou na policlínica já se deparou com o meu filho tendo a primeira convulsão. Transferiram o rodrigo para o Jardim Cuiabá. E eu de longe recebendo todas essas informações, o rodrigo está tendo convulsão, está indo para o hospital, está indo apara uti”, afirma emocionada.

Nesse mesmo dia, Jane se pegou um ônibus para vir à Cuiabá. “Tudo isso por inconsequência de uma pessoa. Isso não se faz nem com animal”, relatou. Ela disse que se deparou com Ledur no hospital se fazendo de vítima. “Me pergunto até o hoje o por que. Pedi para que tirassem ela de lá, ainda não sabia o que tinha acontecido, mas o meu coração de mãe sabia que ela tinha algo a ver com aquilo”, contou a mãe.

Chico Ferreira

Jane Patrício Claro

17h45 – A mãe de Rodrigo Claro começa a depor muito emocionada. “No dia em que ele saiu de casa, abracei o Rodrigo, vi ele pegando a moto e saindo de casa e não sabia que seria o último dia que o veria”, conta. Em seguida ela relata as mensagens que trocava com o filho, em que Rodrigo relatava as perseguições que a tenente Ledur fazia com ele. “Ele me mandou uma mensagem dizendo que ele estava com medo, porque estava prometido pela tenente Ledur”, conta.

Jane diz que deu apoio ao filho mesmo após os relatos que ele dava sobre as perseguições. “Eu dizia “meu filho pode ir confiante em Deus, que ela não vai ser capaz de fazer isso com você””, lembrou. A mãe conta que nunca imaginou do que Ledur fosse capaz. “Se eu soubesse na época do caso do Maurício eu teria tentado interferir, assim como a mãe do Maurício”, afirma.

17h29 – “Eu via um ar de felicidade quando ela fazia isso [afogar]. Ela parece que gostava que tivessem medo dela. Não vejo o sentido de afogar alguém no curso”, afirma Vieira.

17h05 – O soldado relembrou o dia do curso que resultou na morte de Claro. Rodrigo estava em dupla com o soldado Mailson e que durante a travessia acabou ficando para trás por ter dificuldade com água. No primeiro teste ele não viu a tenente realizando os caldos no trecho de ida, cerca de 200 metros, em Rodrigo, porém viu no trecho da volta. Rodrigo teria falado que ia desistir do curso e foi saindo do lago. “Ela entrou na frente dele e disse que ele não iria desisti e perguntado se ele ia desrespeitar um instrutor”, afirmou. “Ele gritava que não queria ser mais bombeiro”, relatou. 

17h01 – Thiago conta que Ledur fazia os caldos em alunos que era “ruim de água”. “Se eu fosse ruim de água, automaticamente eu iria levar caldo. Mas eu sempre me dei bem com água, então nunca levei caldo dela”, afirmou. Porém disse que acredita que com Rodrigo era “marcação”. 

Chico Ferreira

Thiago Serafim Vieira

16h56 – Inicia o depoimento do soldado Thiago Serafim Vieira. Ele prestou o curso de formação dos bombeiro na mesma época que Rodrigo Claro. Na audiência, o militar iniciou afirmando que a tenente Ledur era “autoritária e intimidadora”, atitude diferente dos outros comandantes da corporação. “Ela tratava o pelotão como lixo”.

Vieira conta que presenciou as sessões de tortura de Rodrigo desde os treinamentos na UFMT, onde foram feitos caldos, inclusive na Lagoa Trevisan. Para o soldado, as perseguições à Rodrigo se iniciou quando ele apresentou um atestado informando problemas no joelho . “Ela dizia que ele estava “cochambrado”. A partir de então começou a perseguir ele”, conta o soldado.

16h24 - Quando voltou para o quartel os colegas teriam feito “chacota” com alertas de “vão te pegar”. Poucos tempo antes da formação, um dos comandantes teria sentado com Maurício e o pai para conversar. “Ele disse que ia me dar uns dias para eu fazer uns exames, me cuidar. Lá ele me disse que eu estava prometido para o campo final e que não poderia intervir nas provas e falava que “ninguém é de ninguém”. Aquilo foi minha sentença, eu fui obrigado, coagido a desisti”, contou.

“Se eu não tivesse parado eu teria tido o mesmo fim do Rodrigo”, afirmou. Maurício disse que quando se alistou para os bombeiros, deixou a faculdade de direito, em que estava no 5º semestre, e que ao deixar o curso perdeu muito. “Perdi meu sonho, tive dificuldades para trabalhar, tive que fazer tratamento psicológico”, finalizou.

16h12 – Maurício conta que depois de tudo ainda teve a prova final. “Eu tinha muito medo e estava muito debilitado. Antes mesmo do curso a gente era orientado que se tivesse dificuldades iríamos sofrer”, conta. No dia da prova, que não foi aplicada pela Ledur, o rapaz contou que também sofreu caldos e que após terminar o teste sentiu forte dor de cabeça e passou mal. “Meus colegas pegaram o carro e me levaram para o hospital. Nesse dia ninguém da corporação prestou socorro ou auxílio”, relatou.

16h07 – Em depoimento, Maurício relatou que a tenente o teria xingado após os desmaios quando estava na ambulância. “Ela disse é uma bichinha mesmo, frouxo”, disse. Relatou que outro monitor interveio na situação em prol de outro colega, hoje formado, o soldado Candioto. “O Candioto me acompanhou na ambulância para que não fosse o próximo a ser pego pela Ledur, porque ele também tinha dificuldades”, diz.

Após ter ido para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Maurício disse que em casa a mãe preocupada com a situação quis levar o caso à polícia, mas pediu para que não fizesse nada para piorar a situação. “A gente não deu parte porque eu queria formar, não queria ser perseguido e continuei o curso. A gente era o tempo todo ameaçado. Ela dizia para todos que podiam falar e fazer o que quisessem porque com ela nunca ia acontecer nada”, relata.  

16h03 – Ao promotor Maurício relatou as sessões de tortura que sofreu durante um treinamento do curso de formação, ao fazer uma travessia na Lagoa Trevisan, sob supervisão de Ledur. “O que ela fez com o Rodrigo ela fez comigo. Ela parou no meio da lagoa e começou a me empurrar para debaixo d’água e me puxava comm a corda da boia que a gente usava na travessia por várias vezes”, conta.

Em determinado momento, o rapaz ao relembrar que não estava mais conseguindo lidar com os “caldos” contou que pegou no ombro da tenente e implorou. “Pelo amor de Deus para porque tu vai me matar (sic)”. Após ter pedido para que a tenente acabasse com os sucessivos afogamentos, Maurício relatou que a tenente foi ríspida. “Ela dizia “você é louco, você está encostando numa oficial”, explicou ao dizer que um aluno não pode ter contato físico com um oficial.

Maurício disse que desmaiou dentro da água e só retornou a consciência às margens da lagoa. “Ela gritava de dentro da lagoa que eu tinha que voltar, enquanto eu vomitava”, conta que um colega do curso ainda o orientou a voltar para o treinamento. Ainda na mesma situação, segundo o rapaz, ele sofreu um segundo desmaio e acordou apenas dentro de uma ambulância. “Eu ouvi um cabo questionando o por que de ela fazer isso com os alunos”, relatou.

Chico Ferreira

Maurício Júnior dos Santos

15H57 - Maurício admitiu ter dificuldades nas atividades realizadas na água, mas afirmou que os treinamentos aquáticos realizados até então teriam melhorado o seu desempenho. O promotor pergunta sobre o curso de formação, ao qual o ex-aluno dos bombeiros afirma. "Ela já não gostava do pelotão que eu participava e era visado", relatou.

15h51 – Termina o depoimento do tenente coronel Cavalcante. Neste momento o 2º a depor é o ex-aluno de formação dos bombeiros, Maurício dos Santos. Morador de Sorriso, o rapaz participou de salvamento aquático, também na Lagoa Trevisan, no ano de 2016, porém acabou por desistir por conta de torturas sofridas durante o curso. “O meu sonho foi destruído a menos de um mês antes da formatura, devido ao curso realizado pela tenente Ledur”, relatou.

O treinamento de disciplina iniciou em janeiro de 2016, realizado na piscina da Universidade Federal de Mato Grosso, segundo o rapaz, era feito gradualmente, sob instrução de Izadora Ledur. "Ela tinha uns mecanismos de sugar o pelotão antes mesmo do treinamento", conta. O promotor pergunta se sofria pressão psicológica e o rapaz complementa: "Física também", afirma. 

15h17 A acusação questiona sobre os sintomas e reações ocasionadas durante o grande período de tempo em que os alunos e instrutores praticam o curso de formação. A defesa da tenente Ledur, realizada pelo advogado Huendel Rolim, pergunta se o tenente coronel conhecia ou já trabalhou junto com a mesma. “De 2013 a 2015 trabalhamos juntos em Barra do Garças. Ela era muito disciplinadora, no sentido de exigente, mas era tranquila não houve nenhuma animosidade. A vida pregressa está muito bem retratado. Não tive conhecimento nem do período de antes e nem depois”, afirma.

14h53 - Devido um problema na gravação do depoimento a audiência foi brevemente interrompida. Temendo que a gravação não fosse realizada, a promotoria então refaz as perguntas já realizadas ao tenente. Ainda complementa as perguntas sobre os cursos ministrados por Cavalcante se houve registros de mortes. “Nunca houve nenhum incidente”, afirmou o tenente que disse ter feito cursos de formação e especialização de mergulho.

Willckerson pontua que se devem buscar as origens dos fatos. “As seleções devem ser bem feitas, devido ao nível d exigência se tornar mais rigoroso ao fim do curso. Há que se ter respeito mutuo entre alunos e militares”, afirma.

Chico Ferreira

Tenente Willckerson Cavalcante é um dos bombeiros que prestam depoimento

14h23 - Indagado ainda sobre os procedimentos realizados durante o curso de formação, o tenente coronel frisa que não há punições quanto ao cumprimento ou não do exercício. O promotor narra o depoimento de um aluno do curso relatando sobre uma travessia na lagoa e que eram feitos os “caldos”, afogamentos forçados realizados sucessivamente pela tenente Ledur, não tendo havido nenhuma intervenção superior. 

“É um tratamento inadequado. Não há didática ao realizar os caldos, há simulações feitas de frente com o aluno, mas não pelas costas”, afirma. Conforme Cavalcante há um procedimento similar realizado apenas no curso de especialização. "Tem uma situação adversa que chamamos de "arrebentação". A dupla [do curso] é submetida a "turbilhão". Mas isso acontece no curso de formação, apenas do de especialização", relatou.

14h07 - O promotor do Ministério Público Allan do Ó Souza questiona sobre como é realizada a formação do aluno dos bombeiros, desde o início até a especialização. “Inicia desde a flutuação e a seleção ela subdimensionou a forma com que os candidatos foram selecionados”, explica sobre as atividades, objetivos e avaliações a serem cumpridas.

14h03 - Testemunha de acusação, o 1º a depor é o tenente coronel Willckerson Cavalcante, que atua na corporação dos bombeiros há 24 anos. Ele relata que não estava no dia do curso realizado na Lagoa Trevisan e que já prestou depoimento anteriormente na como especialista. O tenente afirma que a lagoa é um local adequado para o curso, mas enfatiza que não dá para afirmar se houve erros ou não no procedimento realizado.



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