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Quinta, 14 de setembro de 2017, 00h00

Editorial

A moral do brasileiro

Da Editoria


Rendeu grande repercussão o cancelamento de uma exposição artística com mais de 200 obras retratando a temática LGBT, em Porto Alegre (RS), na última semana. A decisão partiu do financiador do projeto, o banco Santander, após uma chuva de críticas pesadas insufladas pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que se tornou conhecido no país por ocasião dos protestos que culminaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Mais do que atuar como porta-voz desta mobilização nacional, o MBL acabou por servir como caixa de ressonância contra o comunismo e os "esquerdopatas" defensores de Lula, Dilma e do Partido dos Trabalhadores (PT). Sua representatividade, no entanto, foi além. Com o cancelamento da exposição de arte, tornou-se um poderoso defensor da tradicional família brasileira, cristã e avessa ao ataque contra seus valores sagrados. Pois bem, a malfadada exposição foi acusada de fazer apologia à pedofilia e à zoofilia, além de "profanar" imagens sacras, como a de Jesus Cristo, que foi retratado com múltiplos braços ou tentáculos. A reação foi imediata e explosiva nas redes sociais. Não se pode concordar com algo que se considere arte, mas mostre crianças sendo exploradas sexualmente, não é mesmo? Com essa informação, o Ministério Público foi até o local da exposição para verificar as denúncias. Não encontrou qualquer imagem explícita ou mesmo que sugerisse pedofilia. O que incomodou muita gente foi a gravura de uma criança, com a inscrição "criança viada" sobre ela. Uma entre as mais de 200 obras trazia a imagem de um homem violentando uma cabrita, o que gera repulsa, obviamente. A autora justificou a obra, lembrando que essa prática sexual era uma marca dos rincões do Brasil rural em outras épocas e que inclusive é descrita por gênios da literatura nacional. As outras imagens mostram sexo entre homens. Frise-se que o tema da exposição abarcava as manifestações de cunho sexual, algumas fazendo compilação histórica destas práticas.

O debate segue caloroso, com defesas apaixonadas de lado a lado e que, provavelmente, não conduzirão a lugar algum. Porque ninguém mudará de opinião se já toma a sua como verdade absoluta.

Mas algo que parece um consenso é o fato de que o Brasil comum, da classe média, a detentora do "gosto da maioria", não sabe o que é arte e nem como tratá-la. Os especialistas batem na tecla de que arte não se encaixa em padrões religiosos ou sociais, não se encaixa em padrões e pronto. É quase sempre instigante, subjetiva e transgressora. Não fosse assim, a decantada Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922 não teria sequer espaço na história, pois não teria alterado percepções e mentalidades. Nudez e sugestões à sexualidade têm até na Capela Sistina, no Vaticano. Certamente não é essa a razão de tamanha virulência nas reações contrárias e sim o fato de que a sociedade está procurando meios de se proteger. Se proteger do desconhecido, do que pode ser novo e da ameaça de mudança do seu padrão de vida, das crenças e convicções. As gerações passam, mas pouca coisa muda. Continuamos em busca de ordem, segurança e nem tanto progresso.



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