WhatsApp Twuitter

Sexta, 14 de setembro de 2018, 00h00

Eleições, um país dividido

Juacy da Silva


Estamos praticamente às vésperas das eleições gerais de 2018. Em três semanas, mais de 147 milhões de eleitores irão escolher quem ocupará o Palácio do Planalto, os governos estaduais, dois terços do Senado, a Câmara Federal e as Assembleias Legislativas. Enfim, definir quem serão os "novos" e futuros donos do poder no Brasil.

Nosso país está vivendo uma das fases mais complicadas de sua história, onde uma crise permanente, que vem de longa data, décadas, quase século, aprofunda cada dia mais os conflitos sociais, econômicos, políticos, ideológicos e culturais, além da dimensão ética, representada pela corrupção que passou a ser escancarada.

Pela primeira vez em nossa história parcela dos donos do poder ou uma fração ou facção das elites do poder, representada por empresários, integrantes dos poderes Legislativo e Executivo Federal, Estaduais e municipais, foram, estão ou serão investigados, condenados e presos por roubarem os cofres públicos.

Todavia, boa parte ou talvez a maior parte desses gatunos estão escapando dos tentáculos da Justiça, representada ultimamente pela Lava Jato e suas coirmãs em diversos estados. Nunca tantos políticos e empresários de prestígio foram presos e condenados, pouco importa se em primeira, segunda, terceira ou "quarta" instância.

Em decorrência, a pauta que definiu o clima pré-eleitoral foi o combate à corrupção. Mas como não se pode esperar que vampiro administre banco de sangue e nem que raposa cuide do galinheiro, parece que esta pauta não está mais como primeira na ordem do dia.

Para o povo, já acostumado com a roubalheira acobertada pelo manto da impunidade, do "foro privilegiado" e também, em boa parte, pela morosidade do sistema judiciário, este será um eterno problema na sociedade brasileira, um câncer incurável.

Diante disso, outros problemas que mais de perto angustiam o povo passaram a ocupar a agenda dos candidatos, com destaque para a saúde pública, a educação, o meio ambiente, a segurança pública, o desemprego, os desníveis sociais, o endividamento das famílias e outros mais. Todos, tratados com extrema superficialidade, propostas incoerentes ou impraticáveis. Em cada lugar os discursos dos candidatos atendem a interesses de uma determinada plateia. Falta, de fato, um plano coerente, com propostas mais claras e detalhadas de como tirar o Brasil desta crise.

Para completar, as pesquisas de opinião dos vários institutos têm demonstrado que, com as decisões judiciais que impediram a candidatura de Lula, preferido da maioria dos eleitores por estar condenado em segunda instância e preso, o candidato de extrema direita Bolsonaro está praticamente consolidado na preferência de pouco mais de um quarto dos eleitores, com "passaporte" para o segundo turno.

Em segundo lugar aparecem embolados quatro candidatos, dois competindo para de fato chegarem ao segundo turno e disputar com o capitão quem será o próximo presidente, que representam as esquerdas (Fernando Hadad e Ciro Gomes), e dois que representam posições mais de centro e que estão sendo esmagados pelo radicalismo que, parece, levará as eleições para no segundo turno a serem definidas muito mais em termos ideológicos, irreconciliáveis, entre esquerda e direita, do que pode resultar uma eleição sem grande legitimidade.

Com certeza, em minha modesta opinião, independente dos resultados das urnas no primeiro e segundo turnos, o Brasil vai iniciar 2019 muito mais dividido do que se encontra hoje, com uma crise muito pior do que estamos presenciando. Uma verdadeira bomba relógio está armada.

Nenhum dos candidatos consegue pacificar o país e como nenhum presidente eleito terá maioria no Congresso Nacional, pela proliferação de partidos, a dispersão de votos em candidatos de partidos diferentes dos partidos que apoiam cada candidato, o resultado levará a necessidade do novo presidente "barganhar", enfim, montar seu balcão de negócios para definir seu ministério e conseguir apoio para as medidas que precisará tomar nos primeiros dias ou meses de governo e implementar seu plano de governo.

Para complicar, muitos deputados e senadores que estão sendo investigados por suspeitas de corrupção e também vários candidatos "novos", que atualmente são deputados estaduais e ex-governadores, que também estão neste grupo, inclusive um que acabou de ser preso esta semana, deverão ser eleitos e/ou reeleitos. Resultado, o novo presidente vai ter que "negociar" com esta banda podre da política e do Congresso Nacional, onde a corrupção e o fisiologismo são as marcas registradas desta vergonha nacional que é a política suja, por maiores loas que alguns tecem a respeito de nossa democracia, bastante corroída pela corrupção, diga-se de passagem.

Enfim, não podemos depositar nossas fichas ou nossas esperanças em nenhum candidato como o Salvador da Pátria e nem acreditar nas promessas/propostas dos candidatos, pois uma coisa são os discursos e promessas de campanha e "planos" de governo, outra coisa é a realidade concreta, complexa, cheia de desafios e contradições, enfrentamentos e muitos conflitos, onde a questão de gênero é apenas um desses "fronts".

Juacy da Silva é professor universitário, aposentado UFMT, mestre em sociologia. Colaborador e articulista de diversos veículos de comunicação. Twitter@profjuacy Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com



// leia também

Domingo, 16 de setembro de 2018

00:00 - O despreparo

00:00 - Liderança feminina

00:00 - Poder; pelo tudo, pelo nada.

00:00 - A energia do futuro

00:00 - Lei que não "pega"

Sábado, 15 de setembro de 2018

00:00 - Proposta a Bolsonaro

00:00 - Origem e melhoramento vegetal

00:00 - Recrutamento e seleção

00:00 - Pimenta nos olhos dos outros...

00:00 - Reeleição na berlinda