WhatsApp Twuitter

Sábado, 26 de agosto de 2017, 00h00

Desmoralização


O povo de Mato Grosso, em particular quem mora em Cuiabá, reagiu com um misto de indignação, euforia e tristeza às denúncias da delação, reveladas em rede nacional. Indignação foi o sentimento compartilhado por todos, mas alguns ficaram eufóricos com a possibilidade de uma profunda limpeza na classe política do Estado após tantos escândalos serem descobertos. Outros, por outro lado, se entristeceram porque moram aqui, constroem as suas vidas em Cuiabá e em Mato Grosso e agora constatam que um ex-governador já foi preso, deputados também e o prefeito da Capital surge em lamentáveis imagens recebendo dinheiro na surdina. O preço da desmoralização está sendo alto e pago pelos contribuintes.

Benefício

O acordo de delação firmado com o MPF rendeu a Silval Barbosa benefícios importantes para ele. O principal é que ele praticamente conseguiu se livrar da cadeia. Uma das etapas do cumprimento da sua pena será em regime semiaberto, ou seja, apenas passará as noites, das 22h às 6h em alguma unidade prisional. A pergunta agora é. E os demais políticos citados na delação? Já podem encomendar o uniforme de presidiários ou isso não vai acontecer?

Quem quer dinheiro?

Rápidos no gatilho, os criadores dos famosos memes se deliciaram com as imagens vergonhosas de políticos embolsando propina. O alvo principal, obviamente, foi o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro. Há montagens mostrando o prefeito em queda livre em uma cachoeira e em vídeos que fazem paródias com músicas e personagens famosos do país. Em um deles, as imagens de Emanuel guardando dinheiro no paletó são acompanhadas da narração de Silvio Santos em seu programa ‘Quem quer dinheiro?’. ‘Põe mais 50? põe mais 100?’, diz a voz de Santos enquanto a plateia diz ‘sim’. Por último, o rosto de Silvio Santos é trocado pelo de Silval, jogando dinheiro a esmo.

Sensatez

O choque no dia seguinte à exibição das imagens no Jornal Nacional foi grande, mas de concreto não houve posicionamentos institucionais concretos sobre as denúncias, com apenas uma exceção. A Procuradoria Geral do Estado (PGE), da qual Alexandre César (PT) faz parte, tomou o cuidado de não pré-julgar a situação, mas afirmou publicamente que abrirá um Processo Administrativo Disciplinar para apurar a conduta de Alexandre e ainda classificou as imagens como ‘graves’. Um sopro de realidade e lucidez em meio a tantas reações excessivamente neutras por parte das instituições envolvidas.

Terra arrasada

Na contagem da imprensa, especialmente os veículos que obtiveram acesso à delação de Silval Barbosa, restam ainda ao menos 3 ou 4 deputados como ‘protagonistas’ do vídeo comprometedor. E esta conta pode estar subestimada, uma vez que a informação que se tem é de que há pelo menos 2 horas de gravações em vídeo e áudio revelando negociatas com políticos e membros dos poderes constituídos. Após a quinta-feira catastrófica, espera-se bombas ainda mais potentes, com capacidade de arrasar o meio político mato-grossense. Aliás, a exposição das imagens no telejornal mais assistido do país já causou estragos permanentes para Mato Grosso. Haverá como reconstruir a confiança da população em seus representantes?

Sujeito oculto

Quem tem razoável facilidade para identificar fisionomias logo desconfiou que o ‘sujeito não identificado’ no vídeo que mostra a entrega de propina para deputados estaduais se tratava de José Domingos Fraga (PSD), também parlamentar. Mas como não havia imagens com ângulos melhores, a confirmação não foi feita. Ontem, no entanto, a sequência do vídeo foi liberada e constatou-se que o homem de camisa branca, colocando maços de dinheiro dentro de uma caixa de papelão era mesmo José Domingos. As imagens mostram o deputado guardando o dinheiro na caixa, em frente ao deputado federal Ezequiel Fonseca (PP) e depois o próprio Domingos deixa a sala com a caixa debaixo dos braços, juntamente com Ezequiel.

Tá gravado?

Criou-se uma nova expectativa em relação à divulgação de conversas gravadas por Silval. Isso porque o senador Cidinho Santos, suplente de Blairo Maggi, fez uma visita a Silval na cadeia por ‘solidariedade’, segundo Cidinho. Mas o ex-governador afirma ter gravado a conversa e haveria um trecho em que Cidinho pede para Silval não fechar acordo de delação premiada. Em troca, afirma que o grupo político do qual representa iria fazer de tudo para anular a Operação Ararath, que revelou esquemas de corrupção no Estado. Do grupo fariam parte Blairo Maggi, Wellington Fagundes e o governador Pedro Taques.

Liderança

As inúmeras ramificações da corrupção em Mato Grosso assombraram o ministro do STF, Luiz Fux, a quem coube homologar a delação de Silval. Antes de chegar ao Supremo, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já sabia que a avalanche de informações mereciam ser alvo de inquérito policial. E quem surge como figura central dessas novas investigações é o atual ministro da Agricultura Blairo Maggi. Segundo Janot, Maggi, na época em que era governador do Estado, ‘exercia incontestavelmente o papel de liderança mais proeminente na organização criminosa’. O inquérito vai devassar os atos suspeitos cometidos pelo alto escalão do governo de Mato Grosso desde 2006.
 



// leia também

Sexta, 22 de setembro de 2017

00:00 - Bloqueio

Quinta, 21 de setembro de 2017

00:00 - Vem de longe

Quarta, 20 de setembro de 2017

00:00 - Cura gay

Terça, 19 de setembro de 2017

00:00 - Discrição

Segunda, 18 de setembro de 2017

00:00 - Inquéritos

Domingo, 17 de setembro de 2017

00:00 - Retratação

Sábado, 16 de setembro de 2017

00:00 - Tentáculos

Sexta, 15 de setembro de 2017

00:00 - Malebolge

Quinta, 14 de setembro de 2017

00:00 - Lentidão

Quarta, 13 de setembro de 2017

00:00 - Criminalização